God Save The Queen - Thinking in Textures

sábado, 19 de novembro de 2016

God Save The Queen


The Crown, “uma saga de uma família – os Windsor -  que envolve duas instituições poderosas, Downing Street e o Palácio de Buckingham, numa época de desafios constantes. Parece vindo da tragédia grega: os irmãos, as traições, a raiva, os tios, os amantes.” Disse o criador Peter Morgan em entrevista ao online da revista Sábado.






Os tempos mudam mas a vida da família real britânica desperta sempre curiosidade, arrisco a dizer que a uma escala mundial. Porém há outro motivo para tanto interesse, neste caso específico: o título de ‘a série mais cara da Netflix’. Tudo isto para acompanhar os primeiros anos do reinado de Rainha Isabel II – interpretada por Claire Foy. 
Peter Morgan em conferência de imprensa realçou que um dos pontos de partida para a criação desta série foi o interesse pessoal numa reconstituição da relação entre Isabel II e Winston Churchill (John Lithgow), líder do governo do Reino Unido. O criador da série explica ainda que esta é “uma relação que sempre quis explorar. No final de contas, ele tornou-se dependente dela [Rainha Isabel II] de alguma forma”, considerando ser este o motivo pelo seu interesse num enredo televisivo. “Pensei... isto é mais do que só um filme, isto podia funcionar como uma série. E foi quando disse ao Andy [produtor]: ‘Porque é que não pensamos nisto como uma série?’”

Dum lado temos um primeiro-ministro em período de envelhecimento que começa a ser contestado pelos seus adversários políticos. Do outro lado uma rainha na flor da idade que tem o mundo de olhos postos na sua vida. O período histórico retratado em The Crown é marcado pela recuperação britânica no pós-II Guerra Mundial e ainda na transformação em Commonwealth até ao conhecido Império Britânico.




Foram precisos cerca de dois anos e meio de pesquisa rigorosa. Os argumentistas estudaram arquivos, biografias e atas governamentais, para não falar das centenas de conversas com indivíduos ligados à casa real britânica. E se há ponto que não falha em The Crown é o contexto histórico bem sustentado ao longo dos 10 episódios. Peter Morgan afirma: “Há que pensar muito bem naquilo que se vai dizer, há que ser responsável.”.

O espectador é transportado para um Reino Unido dos anos 50 e grande parte desse mérito vai para a composição estética. Detalhes na criação de cenários da época são mais um dos pontos fortíssimos da nova menina da Netflix. A cereja no topo do bolo, como se costuma dizer, é a escolha de cenários naturais que acompanham as criações da direção artística.

A Moda ficou entregue a Michele Clapton (vencedora de 3 Emmys), que pensou em cerca de 350 figurinos com mais de sete mil extras. A maioria das roupas foram desenhas por Michele e feitas à mão. Além da beleza e fidelidade aos originais, o guarda roupa foi uma importante ajuda para a transmissão da personalidade de cada personagem. Podemos comparar as escolhas de Isabel II e sua irmã, Princesa Margaret (Vanessa Kirby) – a primeira é dona de roupas mais sóbrias, enquanto que a segunda esbanja figurinos extravagantes e modernos.




Os olhares e o gestos fazem os momentos de tensão, é importante realçar uma cena violenta entre Isabel II e o seu marido, Philip, que é apresentada ao espectador sem áudio, o que não deixa de apresentar a gravidade do acontecimento. The Crown apresenta falta de consistência ao dosar conflitos políticos e dramas pessoais. Enquanto que alguns episódios são tão completos, outros pecam em lentidão.

As palmas não poderiam faltar ao elenco que nos faz esquecer todas as pequenas falhas - que podem muito bem ser apenas caprichos meus. Claire Foy que desde o primeiro momento traz humanidade à monarca, capaz de derrubar os preconceitos que são feitos à volta de sua majestade. A evolução de uma rainha doce e tímida acaba por ter fim dando lugar a uma faceta firme e austera que é feita com mestria por Foy – e muitas das vezes sem falas.

John Lithgow é outra das surpresas do elenco, o norte-americano que se junta à produção britânica graças à diretora de casting, que não lhe ficou indiferente. Para além da transformação física o ator construiu uma dinâmica, no mínimo interessante, com a protagonista. Contudo o melhor de Churchill só é apresentado no final da primeira temporada.




Se espera um Matt Smith com a mesma personalidade de Doctor Who, Philip é um homem contraditório: se num momento tem ideais modernos, no momento a seguir é frustrado pelo facto de ser subordinado pela sua esposa numa sociedade ainda mais machista. Vanessa Kirby a.k.a Princesa Margaret aproveita o seu drama amoroso para brilhar... e mais não digo (corro o risco de entrar em modo spoiler).

Em entrevista ao online da revista Sábado, Peter Morgan admite o cansaço que foi ser responsável por 10 horas de guiões: “É uma brutalidade tenebrosa fazer isto, fui escrevendo à medida que íamos gravando.” acrescentando que não voltará a repetir tal feito na próxima temporada, que já começou a ser gravada.

Quando confrontado com a pergunta de mais temporadas responde: “Só é para continuar se a série for amada a nível global. É muito trabalho e tem de valer a pena, não só para mim mas para quem vê, tem de criar ressonância cultural.”